quarta-feira, 8 de abril de 2009

O Misterioso Caso do Molho Gelado Com Filé. Parte Final




A porta se abre, era minha avó. Passa por todos e comenta o silêncio momentâneo:
- silêncio...que houve?
Rosângela responde:
- Alguém comeu o molho de macarrão com filé de madrugada.
- eu hein.

E continuou a sua caminhada. Sempre a mesma, chinelos arrastando no chão, braços para trás e gemendo as mesmas 3 notas de sempre. Agora tudo ficou um pouco mais claro.

- Viu Rosângela, foi ela.
- UMA SENHORA DESSAS VAI COMER MOLHO GELADO DE MADRUGADA?
- ce não acha?

Nesse momento todos param para escutar vovó passando pela janela da cozinha, olhando no olho de todo mundo até a janela terminar. Rosângela se convence:
- UMA SENHORA DESSAS VAI COMER O MOLHO GELADO DE MADRUGADA!!! ( nota-se um pouco de humor vindo de Rosângela.)

Agora precisávamos de provas mais concretas. Olhares pela janela com uma trilha sonora de gemidos não são um alicerce para incriminar alguém. Não haviam provas. Simplesmente quem cometeu o delito fez tudo com muito cuidado. O único jeito era tentar arrancar algo de vovó. O primeiro a tentar foi Rosângela:

- a senhora comeu alguma coisa de madrugada?
- eu não minha filha, ta maluca? eu hein!
Minha avó tinha um jeitinho de debochar com uma risadinha no final que fazia você querer rasgar seu próprio olho com um palito de dentes.
- EU VOU DESCOBRIR QUEM FOI!
- ta certo filha.

Resolvi tentar:

- vó, o molho que eu deixei pra você comer na geladeira... ce comeu já né?
- não meu filho, ainda não, pode me trazer agora que eu como.

Ah canalha! Tava jogando o jogo certinho. Mas tinha q ser ela, só ela iria assaltar a geladeira proibida. Era ela quem passava o dedão no pudim, era ela quem lascava a mão no bolo e ela era quem... de repente ouve-se o barulho da porta da geladeira. Alguem deixou a cozinha desprotegida. Quando eu cheguei, já era tarde. Vovó estava bebendo o leite direto da caixinha de novo.

- vóóó!!! não pode! que porcaria!
- o que!?!??!?!?!?!?!?!?!?!?! q houve?!?!?!?!
Vovó tinha mania de negar que comia farofa, suja de farofa e com a farofa na boca, jogando em quem estivesse perguntando.
- vó, usa o copo né! olha aqui!
Comecei a servir o leite no copo e dei para ela. Então aconteceu o inesperado. Vovó olha para mim e num ataque de fúria joga o copo de leite em mim.
- toma isso daqui!

Eu não sabia como reagir. Gritei bem alto, meio fino e meio grosso e saí molhado de leite. Troquei de camiseta, lavei o rosto e quando me olho no espelho tudo fez sentido. Ou não. Mas fez: - ahh caceta, ela comeu o molho sim, ta toda estressada já! haha!

Corri para a cozinha, não vovó não estava lá. Cheguei na varanda, lá estava ela, normalmente fumando seu cigarro.

- vó! jogou leite em mim por culpa né?!
- hein? leite?
- ih...

Nesse momento fiquei com sono, tristeza, raiva e angústia. Não tem como fazer vovó se confessar, não tem como desvendar o mistério com certeza absoluta. Mas foi ela.

Coloquei um sino na geladeira. Quem abrisse faria um barulho e alguém poderia ir ver quem é. Em vão, Rosângela abriu 5 vezes seguidas e tirou o sino de raiva. Não tem como. Não dá para parar vovó. E assim, a vida continuou. Os chinelos continuaram se arrastando, os gemidos continuaram fazendo as 3 notas de sempre e a qualquer momento poderia acontecer algo. Nenhum alimento estava a salvo, e agora, eu também não.

4 comentários:

anê disse...

"Gritei bem alto, meio fino e meio grosso "

HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA

Thaysa disse...

Eu tbm odiava esse sino!

Gracia disse...

Ela já tinha Alzheimer?

Breno disse...

auhsuahsuahsuash, perfeito o detalhe das ações... kkkkkkkkkkkk